Inspirando mudanças na educação infantil, Seminário da Undime/SC encerra programação

Em dois dias de imersão em conteúdos provocativos e vivências no município de Blumenau, educadores de todo o país são levados a repensar práticas pedagógicas na primeira infância e alfabetização.

Com o entusiasmo das experiências do dia anterior, os participantes retornaram ao auditório do Teatro Carlos Gomes, em Blumenau, munidos de blocos e canetas para não perder nenhum insight dos momentos teóricos. “Estamos em 40 pessoas, todos os nossos diretores das unidades educacionais e equipe técnica da secretaria municipal de educação, porque é uma oportunidade de conhecer outros resultados de qualidade de ensino e levarmos essa bagagem para nossa cidade”, afirma a dirigente Municipal de Educação de Rio do Sul, Janara Mafra.

Parte da equipe de Rio do Sul reunida na escadaria do Teatro Carlos Gomes.

A tradição alemã esteve em destaque durante todo o 4º Seminário da Undime/SC: Primeira Infância e Alfabetização, desde a recepção aos participantes até às apresentações culturais, como a do programa Pró-família de Blumenau, coordenado pela professora Irene Domingos, que trouxe a dança folclórica para abrir o segundo dia. Para o prefeito Mário Hildebrandt é uma honra receber tantos profissionais da educação no município de Blumenau, socializando práticas para a melhoria da qualidade na educação infantil. 

Pensando a aprendizagem na alfabetização

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) na Educação Infantil foi o eixo central das discussões acerca da alfabetização na primeira infância e de como consolidar as aprendizagens, num diálogo proposto pela palestrante Sônia Fachini, assessora pedagógica da Undime/SC e representante de Santa Catarina no programa Embaixadores da BNCC.

“Tivemos uma grande defasagem dessas aprendizagens no período pandêmico e precisamos repensar estratégias de recomposição, que vai além de analisar o que conseguimos ou não trabalhar. É necessário levar em consideração o nível de instrução dos estudantes, alinhando o currículo e projeto político pedagógico da escola ao plano do professor, a fim de reduzir o déficit de ensino e avançarmos na consolidação das aprendizagens”, explica Fachini. 

Definindo a alfabetização como principal ação pedagógica no início do ensino fundamental, destaca que a leitura e escrita precisam ser preceitos nesse processo e construídos em conjunto. “A leitura é pré-requisito da escrita, tanto que, para ler, nós não precisamos escrever. A criança não é uma copista. Para que entenda a escrita, eu preciso trabalhar a leitura inicialmente”. Facchini complementa que a BNCC é fundamentada numa lógica evolutiva, que prevê a aquisição de habilidades relacionadas à leitura e escrita desde o final do 2º ano, tendo continuidade no 3º ano, com ênfase na ortografização.

A palestrante observa que a base não oferece orientações didáticas e que isso compete aos educadores que conhecem a realidade, trabalhando o processo investigativo nos ambientes escolares. “É importante qualificar as equipes que atuam nas redes de ensino e a Undime tem sido uma grande aliada dos municípios quando o assunto é capacitação. É gratificante estar aqui como palestrante e parte da instituição para contribuir com esse diálogo qualificado”, e ressalta a necessidade de tornar permanente as formações continuadas. Tendo em vista a importante função social da escola, afirma que o professor precisa estar em constante estudo, pois é uma profissão que lida com muitas vidas. 

Para a dirigente Municipal de Educação de Cunha Porã, Luciane de Oliveira Bueno, a assessoria da Undime/SC tem feito a diferença no dia a dia da gestão. “Somos um município pequeno e participar desses momentos com a nossa equipe é enriquecedor, ainda mais tratando de temas que envolvem a primeira infância e alfabetização. Pra gente que ama essa área, é sempre bom ter a Undime como parceira e agregar conhecimentos”. 

Funções executivas na diferença para a vida
“As crianças nascem com potencial para desenvolver as funções executivas, mas não com as habilidades. É preciso encorajá-las”, com essa fala, a pedagoga e consultora educacional, Regina Shudo, especialista em educação infantil e alfabetização, induziu à reflexão sobre o desenvolvimento.

Shudo apresentou o conceito das funções executivas como a área do cérebro responsável por regular as emoções e que impacta diretamente na tomada de decisão, foco, planejamento e regulação de sentimentos. Com base em estudos científicos, explica o lado quente e frio do cérebro, sendo a área da emoção e das habilidades cognitivas, respectivamente. “É preciso trabalhar o lado quente, que é o desenvolvimento integral e pleno da criança. Só ensinar não basta, temos que proporcionar vivências, o desemparedamento, o brincar heurístico, a contação de histórias, para potencializar essas funções, que refletirá num melhor desempenho escolar futuramente”.

Em palestra interativa, que arrancou risos e aplausos entusiasmados do público, Shudo reafirmou a importância de estimular essa área do cérebro, e condensou o conteúdo numa frase que merece reflexão: “o que ocorre com uma criança vai fazer diferença durante uma vida inteira”.

Direito ao aprendizado e à valorização da criatividade
Fazendo o resgate dos marcos legais relacionados à “Alfabetização nos anos iniciais: o que é preciso para que esse direito seja assegurado”, a doutora em Linguística Aplicada e formadora de educadores, Maria Regina Passos, explanou sobre as leis que tratam da alfabetização e processos ligados à neurociência como precursores para a garantia do direito à aprendizagem.

“Temos dados um tanto preocupantes no nosso país que não podem ser ignorados. Em nível nacional, nossa responsabilidade é promover a melhoria dos índices de aprendizagem e desenvolvimento a partir do que preceitua a BNCC”, diz a palestrante. As políticas públicas da infância e os trabalhos desenvolvidos por Santa Catarina despertaram a atenção da dirigente Municipal de Educação de Vassouras (RJ), Magda Elaine Sayão Capute, que registrou a satisfação em participar do Seminário:

“Nosso compromisso com as crianças é ajudá-las a aprender a aprender”, coloca a consultora educacional Beatriz Ferraz, em afirmativa sobre o papel de liderança que deve ser protagonizado pelas crianças no processo de aprendizagem. É a partir de contextos provocativos e de planejamento pautado na escuta das crianças, que é possível ajudá-las a descobrir sentido no que fazem.

“O professor não pode ser a figura central. A co-construção do conhecimento acontece apoiando as crianças a organizarem seus próprios pensamentos. Elas precisam de segurança e regularidade, nesse sentido, a escola tem papel fundamental tanto na organização do dia a dia quanto no estímulo ao pensamento crítico”, destaca a consultora educacional, que menciona a oportunidade de participar de um evento promovido pela Undime Santa Catarina. “Estou muito feliz de participar deste Seminário, com mais de 750 educadores, refletindo sobre a qualidade da educação infantil e, principalmente, o enorme potencial que têm as nossas crianças”.

Divisor de águas para a educação infantil

O maior evento de educação infantil do Sul do país trouxe a Blumenau, nos dias 19 e 20 de outubro, mais de 750 participantes de 180 municípios dos estados do Ceará, Mato Grosso do Sul, Piauí, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Tocantins e Santa Catarina. Marcaram presença as presidentes das seccionais do Ceará e Piauí, Luiza Aurélia, dirigente Municipal de Educação de Crateús (CE), e Érica Graziela Benício de Melo, dirigente municipal de Educação de Domingos Mourão (PI).

Sobre a oportunidade de participar das discussões acerca da primeira infância e alfabetização, a presidente da Undime/CE considera que voltará para casa com bagagem cheia. “Certamente nos tirou da zona de conforto, quebrando muitos dos nossos paradigmas. Vamos voltar com a mala mais pesada, de muitas experiências que irão impactar a vida das nossas crianças”.

Para a presidente da seccional do Piauí, o evento foi fonte de motivação e trará novos desafios para o município. “Foi uma experiência incrível poder ver tudo isso de perto. Com certeza, uma semente foi plantada e não voltarei com a mesma visão”, enfatiza a presidente, que além de já ter entrado em contato com o Ministério Público e Tribunal de Contas do Piauí, planeja reunir a equipe para repassar os aprendizados e traçar ações. Para o ano que vem, pensa em voltar com a equipe completa.

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