“A escola é feita para garantir direitos; ela não pode selecionar, nem encolher”

Pedagoga e neuropsicopedagoga, Juliana Rubio, encerra o segundo dia de programação do Fórum Undime SC ao questionar o modelo de escola que ainda tenta padronizar crianças

Publicado em Notícias - 25/03/2026.

Uma escola que não seleciona, nem encolhe, mas se expande para garantir direitos e acolher a diversidade de todas as crianças que estão ali. Foi com essa provocação que a pedagoga e neuropsicopedagoga, Juliana Rubio, conduziu sua palestra no Fórum Undime SC, ao defender uma mudança urgente: parar de adaptar as crianças a um modelo e começar a ampliar a escola para que todas existam nela. 

“Quando a escola enxerga aparência, família ou rótulos antes de enxergar a criança, a inclusão deixa de ser direito e vira discurso”, afirmou.

Juliana foi além da ideia tradicional de inclusão. Não falou apenas de estudantes com deficiência, mas de todos aqueles que, silenciosamente, não cabem no padrão: a criança negra que não se reconhece nos livros, a que é alvo de piadas pelo corpo, a tímida que não tem voz nem vez, a pobre que chega sem material, a que é filha de família homoafetiva. “São crianças que a escola tenta normalizar, padronizar, tornar iguais a todas as outras, mas que, na prática, acabam sendo silenciadas ou deixadas à margem quando não se encaixam nesse padrão”, afirma.

Segundo ela, esse processo é tão naturalizado que muitas violências passam despercebidas, inclusive por quem as sofre. A constatação veio da prática. Ao assumir a direção de uma escola municipal em Sorocaba/SP, Juliana decidiu trabalhar temas como racismo e preconceito. Ouviu que aquele não era um problema ali. Ainda assim, começou com pequenas ações: conversas no recreio, cartazes, imagens, rodas rápidas de diálogo. O que veio depois mudou tudo. “As crianças começaram a perceber que eram ofendidas. Antes, não sabiam que aquilo era violência”, conta. Ao dar nome ao problema, ele apareceu. E, mais do que isso, começou a ser enfrentado.

A iniciativa, que começou dentro da escola, ganhou escala e chegou à rede municipal. A Secretaria de Educação instituiu uma comissão mista antirracista e estruturou um fluxo de atendimento para casos de violência entre estudantes. Em vez de punição automática, o encaminhamento passou a incluir práticas de justiça restaurativa, com escuta, mediação e responsabilização, buscando reconstruir vínculos. “É a escola dizendo: não está bom o que está acontecendo aqui.”

Para Juliana, a inclusão não pode ser tratada como projeto pontual ou ação restrita a datas simbólicas. Ela precisa atravessar todo o cotidiano escolar: currículo, formação de professores, escolha de materiais, linguagem, reuniões com famílias e decisões administrativas. Nesse processo, o papel dos gestores é decisivo: são eles que garantem que essa perspectiva deixe de ser isolada e passe a orientar toda a rede. “Diversidade não é mural. É estrutura”, diz.

A mudança, segundo ela, precisa começar cedo nas crianças, antes que o preconceito se consolide nelas. “A gente aprende a não perceber a violência, aprende a se adaptar para caber. E isso precisa ser rompido. Muitas vezes, o problema não é a ausência de preconceito, mas a dificuldade de reconhecê-lo no dia a dia. E isso também serve para as escolas, para as secretarias e todos aqueles que trabalham com educação”, finaliza.

Fonte: Undime-SC

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