Antecipar etapas ou impor tarefas mecânicas é negar a infância: especialistas alertam para riscos da escolarização precoce

Na palestra que abriu o último dia de programação do Fórum Undime SC, Israel Boniek e Regina Shudo destacaram que tratar a educação infantil apenas como preparação para o futuro compromete o presente das crianças

Publicado em Notícias - 26/03/2026.

A defesa de uma infância que não seja atropelada pela pressa dos adultos, nem limitada a tarefas mecânicas abriu o último dia do Fórum Undime SC. Na palestra sobre as especificidades e a legislação da educação infantil, o doutor em Educação e diretor do Instituto Infâncias, Israel Boniek, e a pedagoga e especialista em Educação, Regina Shudo, fizeram um alerta direto: a infância precisa ser vivida no tempo da criança, do jeito dela, com suas próprias descobertas e curiosidades. Tratar a Educação Infantil apenas como preparação para o futuro é, na prática, negar o presente da criança.

Em um cenário de mudanças impulsionadas por diretrizes como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), Boniek destacou que o país avançou ao adotar um novo conceito de criança: mais ativa, protagonista e capaz de produzir cultura. Mas, segundo ele, a prática ainda não acompanha esse entendimento. “Quando a gente antecipa processos e força uma lógica escolar precoce, deixa de olhar para a infância como ela deve ser olhada”, afirmou. 

Para o pesquisador, o risco da primeira infância está em substituir experiências essenciais por tarefas mecânicas, muitas vezes copiadas de modelos prontos, que pouco dialogam com a curiosidade da criança. A crítica não é à alfabetização em si, mas à forma como ela pode acontecer. “Ninguém é contra uma criança sair alfabetizada, o problema é romper com o direito de ser criança para atingir esse resultado”, disse.

Regina reforçou o diagnóstico. Para ela, apesar dos avanços legais, ainda há um distanciamento entre o discurso e a realidade. “Todo mundo diz que a primeira infância é prioridade absoluta. Mas é mesmo?”, provocou.

Segundo ela, a educação infantil ainda carrega marcas de um modelo assistencialista e centrado no adulto, visível em práticas que ignoram a autonomia das crianças, desde rotinas rígidas até a falta de escuta. “Às vezes, tiramos a autonomia em coisas básicas: a criança precisa dormir naquele horário, comer naquele momento. “E se ela não quiser? Onde está o direito dela?”, questionou.

A especialista também chamou atenção para a equidade. Mais do que garantir vaga, é preciso oferecer condições reais de aprendizagem para todas as crianças, respeitando suas diferenças culturais, territoriais e de contexto. Desigualdades sociais, racismo estrutural e até o uso excessivo de telas ainda afastam muitas crianças de experiências significativas.

Shudo criticou a desconexão entre escola e realidade. “A criança vem da praia, do campo, da floresta, mas isso não entra no currículo. A escola ignora o que a constitui”, afirmou. Para ela, qualidade nessa etapa passa por repensar práticas, espaços e propostas pedagógicas, considerando a diversidade da infância.

Os novos parâmetros de qualidade e equidade da educação infantil surgem como uma oportunidade de mudança. Mais do que um documento, eles convidam escolas e educadores a revisar práticas, priorizar experiências significativas e promover autoavaliação institucional.

Para os palestrantes, o caminho passa por reconhecer que a primeira infância tem valor em si mesma. Não se trata de antecipar etapas, mas de garantir vivências que ampliem o repertório, respeitem o tempo da criança e sustentem seu desenvolvimento integral. “Ou a gente faz isso agora, ou depois é tarde”, resumiu Shudo.

Fonte: Undime-SC

Compartilhe:

Parceiros Institucionais